Quando alguém pergunta qual é o melhor investimento disponível, a resposta mais útil raramente começa pelo nome de um produto. A própria CVM orienta o investidor a partir de seus objetivos, destacando que retorno, risco e liquidez precisam ser considerados antes da escolha dos instrumentos que formarão a carteira.
Essa mudança de perspectiva parece simples, mas altera a lógica da decisão. Em vez de procurar primeiro a aplicação com maior rentabilidade aparente, o investidor passa a identificar quando precisará do dinheiro, quanto de oscilação consegue suportar, quais necessidades exigem liquidez e qual função cada parcela do patrimônio deverá cumprir.
A carteira deixa, assim, de ser uma coleção de produtos comprados em momentos diferentes e passa a funcionar como uma estrutura organizada em torno dos objetivos do investidor.
O mesmo patrimônio pode ter vários horizontes
Uma pessoa dificilmente possui apenas um objetivo financeiro. Parte dos recursos pode estar destinada a imprevistos, outra parcela pode financiar a aquisição de um imóvel dentro de alguns anos e uma terceira pode ter como finalidade a aposentadoria ou a construção de patrimônio de longo prazo.
Esses objetivos convivem dentro da mesma carteira, mas não deveriam ser tratados da mesma maneira. Recursos que podem ser necessários em pouco tempo exigem características diferentes daqueles que poderão permanecer investidos durante dez ou vinte anos.
Separar os objetivos por horizonte ajuda a evitar um erro frequente: escolher bons investimentos individualmente, mas combiná los de uma forma incompatível com as necessidades do investidor.
Liquidez possui função dentro da carteira
A liquidez de um investimento representa a facilidade com que ele pode ser convertido em dinheiro a um valor razoável. Essa característica possui valor econômico e precisa ser relacionada à finalidade do recurso.
Uma reserva destinada a despesas inesperadas precisa estar acessível, enquanto recursos destinados a objetivos muito distantes podem admitir menor liquidez caso exista uma compensação adequada em termos de retorno esperado, diversificação ou acesso a determinadas oportunidades.
O problema surge quando o investidor aceita abrir mão da liquidez em busca de rentabilidade adicional sem considerar quando poderá precisar daquele dinheiro. Nesse caso, uma decisão aparentemente eficiente pode produzir perda ou necessidade de vender ativos em um momento inadequado.
Risco não significa apenas oscilação de preço
Volatilidade é uma manifestação do risco, mas não a única. Crédito, liquidez, concentração, inflação, moeda e alterações nas condições econômicas podem afetar investimentos de maneiras diferentes.
A relação entre risco e retorno precisa ser observada de acordo com as características de cada ativo e com a função que ele exerce dentro da carteira.
Um investimento com pouca oscilação diária pode possuir risco relevante de crédito. Um ativo negociado em bolsa pode variar bastante de preço, mas apresentar elevada liquidez. Um imóvel pode parecer estável porque não possui cotação a cada minuto e, ainda assim, exigir meses para ser vendido por um preço considerado justo.
Avaliar risco exige, portanto, olhar para a origem da incerteza e não apenas para o comportamento recente do preço.
Diversificação precisa ter propósito
Diversificar não significa simplesmente aumentar o número de produtos. Uma carteira com vinte investimentos expostos aos mesmos fatores econômicos pode continuar bastante concentrada.
O objetivo é combinar fontes diferentes de risco e retorno, reduzindo a dependência de um único emissor, setor, classe de ativos, moeda ou cenário econômico.
Essa discussão será aprofundada em como funciona a diversificação de uma carteira, porque a qualidade da diversificação depende mais das relações econômicas entre os ativos do que da quantidade de nomes presentes no extrato.
Renda fixa reúne riscos e comportamentos diferentes
O termo renda fixa agrupa instrumentos bastante distintos. Títulos podem possuir emissores públicos ou privados, prazos curtos ou longos, remuneração prefixada ou ligada a índices e diferentes condições de liquidez e risco de crédito.
Dois investimentos classificados como renda fixa podem reagir de maneira muito diferente a uma alteração da taxa de juros. Um título longo e prefixado, por exemplo, pode apresentar oscilações relevantes de preço antes de seu vencimento, enquanto determinados títulos de curtíssimo prazo possuem comportamento muito mais estável.
A categoria ajuda a organizar o universo de investimentos, mas não substitui a compreensão das características de cada instrumento.
Renda variável também possui funções distintas
Ações, ETFs, fundos imobiliários e outros instrumentos de renda variável podem desempenhar funções diferentes dentro de uma carteira.
Uma seleção de empresas maduras e geradoras de caixa possui características distintas de uma carteira concentrada em companhias de crescimento. Da mesma forma, um ETF global pode aumentar a diversificação geográfica, enquanto um fundo setorial pode aumentar a exposição a uma única atividade econômica.
O nome da classe de ativo oferece apenas o primeiro nível da análise. A decisão depende da exposição econômica efetivamente adicionada ao patrimônio.
Rentabilidade passada pode distorcer a decisão
Períodos de forte valorização costumam atrair recursos justamente quando boa parte do movimento já aconteceu. O investidor observa aquilo que apresentou melhor desempenho e passa a tratar o resultado recente como indicação de que o mesmo comportamento continuará.
Esse mecanismo pode produzir uma sucessão de compras depois das altas e vendas depois das quedas, fazendo a carteira acompanhar tendências em vez de objetivos.
Uma estratégia de alocação reduz essa dependência de decisões tomadas a partir de acontecimentos recentes, porque estabelece previamente quais funções cada classe de ativo deverá cumprir.
A carteira também precisa acompanhar mudanças da vida
Objetivos mudam, patrimônio cresce ou diminui, famílias se transformam e novas responsabilidades surgem. Por isso, uma carteira construída de maneira coerente hoje pode precisar de ajustes no futuro.
Revisar não significa substituir produtos constantemente. Em muitos momentos, a melhor decisão pode ser simplesmente manter a estratégia e corrigir pequenos desvios provocados pela valorização ou desvalorização de determinados ativos.
A revisão deve verificar se a estrutura continua adequada ao investidor, e não procurar um motivo para movimentar a carteira.
Produto deve ser consequência da estratégia
A indústria financeira naturalmente apresenta produtos porque eles são concretos, comparáveis e possuem taxas, nomes e rentabilidades. Para o investidor, porém, começar por eles pode inverter a lógica da decisão.
Uma carteira consistente define primeiro objetivos, prazo, liquidez e capacidade de assumir riscos. Em seguida, determina uma estratégia de alocação e somente depois escolhe os instrumentos capazes de executar essa estratégia.
A discussão sobre como criar uma política de investimentos aprofunda justamente essa passagem entre objetivos e produtos. Quando essa ordem é respeitada, o investimento deixa de ser uma coleção de oportunidades e passa a fazer parte de uma estratégia patrimonial.
